Crédito: Jessica Donati

Elas também estão nos campos de batalha

Por trás das informações que chegam sobre os conflitos que acontecem em todos os cantos do mundo, estão os correspondentes internacionais. O primeiro jornalista enviado a um campo de batalha foi o irlandês William Howard Russel, durante a guerra da Criméia, em 1854, pelo jornal The Times. Na época, ele mandava os relatos via telégrafo. Hoje, mesmo com avanços tecnológicos, as dificuldades e os perigos continuam sendo um dos principais desafios dos jornalistas que vão para o front cobrir guerras e conflitos armados. Agora imagine, ainda, se esse jornalista for uma mulher.

“Manha”

A norte americana, Jessica Donati, trabalhou em muitos segmentos do jornalismo antes de começar a cobrir os conflitos na Líbia para uma agência de notícias norte americana em 2011. “No início foi bastante chocante estar naquele contexto, mas é incrível como podemos nos adaptar”, diz. “Com o tempo foi ficando mais fácil administrar o estresse, o medo e a sensação de risco.” Jessica conta que mergulhou tão profundamente nessa realidade, que acabou se distanciando de sua vida antiga. E chega a ser intolerante com quem não entende como é estar em zonas de conflito.

Segundo ela, só o tempo ensina “as manhas” para viver em situações como essas e alerta: “ter pessoas de confiança a sua volta é a chave para correr menos riscos”. Mas os perigos existem aos montes, tanto para o sexo masculino quanto para o feminino. “Para uma mulher, existem condições boas e ruins. Por exemplo, viajar sozinha pode ser difícil ou até impossível, em alguns casos, mas conseguir ajuda ou alguma informação é muito mais fácil do que para os homens.”

Mesmo assim, por mais cuidado que se tome, ser jornalista em um país onde a cultura e as crenças são completamente diferentes dos seus pode, muitas vezes, te colocar em situação de vulnerabilidade. “Existe o risco frequente de as pessoas poderem tirar vantagem de você, principalmente, quando não se conhece a legislação do país”.

Memórias

A brasileira, Deborah Berlinck ficou marcada por outras situações. “Foi na Arábia Saudita onde senti o maior choque”, conta. “Lá a mulher é oprimida de forma chocante. Ela não pode sair na rua sem estar acompanhada por um homem da família, não pode dirigir, é proibida de ter conta em banco e não tem acesso ao passaporte sem a autorização de um homem”. Deborah também lembra que a Arábia Saudita foi o único país onde precisou comprar a vestimenta muçulmana completa – a Abaya, que cobre o corpo dos pés à cabeça –, para que não tivesse problemas ao sair em público.

Ela lembra da cobertura na Líbia que fez para o jornal O Globo e diz que foi “sem dúvida” a mais interessante e completa. “Mais do que a adrenalina do front e as imagens da violência e tortura, o interessante foi mergulhar na vida dos personagens e descobrir que, por trás do rebelde armado, havia um professor de matemática ou um engenheiro que, antes da guerra, tinham uma vida quase tão pacata quanto a nossa”, afirma. “Nada mais impressionante numa guerra do que histórias humanas”.

Mas, na mesma cobertura, além das boas memórias, ela também recorda os momentos de superação. Num calor de 40 graus, ela precisou tomar banho com garrafa de água. Além disso, passou fome. “A queda de Trípoli coincidiu com o mês de Ramadã (período em que os muçulmanos jejuam), então muitas vezes eu só comia uma vez por dia ou me alimentava com biscoitos”, lembra. “A Líbia foi o maior teste da minha carreira em termos de resistência física”.

Em todas as viagens, Deborah conta que fez uma constatação: como mulher ela teve mais vantagens do que muitos de seus colegas jornalistas. “Tive acesso aos homens e às mulheres. O que não foi o caso de jornalistas homens, já que, numa sociedade extrema como a saudita, a mulher não fala com um homem desconhecido”. Na Líbia, muitos homens a protegeram. Quando precisou andar até um lugar com melhor acesso à internet, para escrever e enviar seus textos, um grupo de rebeldes armados a escoltaram.

Mas essa “vantagem” não se repete em outros países, como no Egito, onde muitas mulheres jornalistas já relataram experiências violentas. “A americana Clare Morgana Gillis, amiga com quem trabalhei na Líbia, passou um mês com James Foley (o jornalista recentemente decapitado na Síria) numa prisão. Na captura, ela tomou uns tapas, como os outros, e contou que seu maior temor era o estupro. Não aconteceu.”

Importância vs. risco

Outra situação de cobertura de risco foi a da repórter e colunista do jornal Folha de S. Paulo, Patrícia Campos Mello, em sua recente viagem para acompanhar de perto a repercussão do vírus Ebola na Serra Leoa. “Trata-se de uma situação gravíssima, em um país muito pobre e de infraestrutura precária”, diz. “Foi a cobertura mais difícil e perigosa que já fiz, mas foi a mais necessária porque é essencial que jornalistas estejam lá para mostrar a gravidade da situação”.

Abaixo estão duas das coberturas feitas pela jornalista Patrícia Campos Mello, do jornal Folha de S. Paulo:

 

*Foto: Jessica Donati



Sobre

A simplicidade e complexidade andam de mãos dadas. Tem vezes que mete os pés pela cabeça, mas quase sempre é dominada pelo silêncio dos olhos. Jornalista com dom para os perrengues e, em seu mundo, um dia tem 48 horas. Ou, pelo menos, deveria ter.


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