masculinismo (1)

Eles querem ainda menos igualdade

Dizem que para toda ação existe uma reação. Com o crescimento no número de adeptas ao feminismo, as causas vêm sendo cada vez mais discutidas nas redes sociais. Estranho seria se grupos que pregam a oposição às feministas não começassem a surgir. Nos últimos meses, grupos que defendem o ódio àqueles que acreditam na igualdade entre os gêneros tem ganhado mais apoio no Brasil e no mundo.

Os masculinistas, como são chamados, acreditam que as conquistas femininas das últimas décadas tornaram o mundo um lugar mais hostil para os homens. Portanto, segundo eles, é preciso discutir meios para se proteger do poder feminino em ascenção.

Entre as ações para discutir o tema, está a Primeira Conferência Internacional Sobre as Questões dos Homens na cidade de Detroit, nos Estados Unidos, realizada em junho deste ano. A conferência reuniu 200 pessoas, de maioria homem, e teve o objetivo de discutir as ameaças enfrentadas por eles na sociedade atual.

“O feminismo é perigoso para a sociedade, porque é uma ideologia corrupta em busca do poder através de mentiras, desinformação e mentalidade de vítima”, afirma Paul Elam, editor e CEO da A Voice for Men (AVfM), organização que planejou o evento. Uma das queixas mais recentes do grupo contra as feministas é que elas impediram, com ameaças de atentados, a realização da convenção em um grande hotel no centro de Detroit. Eles precisaram transferi-la para a periferia. Pediram ajuda pela internet e conseguiram arrecadar, de um dia para o outro, US$ 23 mil para reforçar a segurança do evento. O forte apoio recebido em tão pouco tempo assusta. Apesar do pequeno número de pessoas que compareceram ao encontro, muitas pessoas parecem compactuar com as premissas do movimento.

Os membros dessa organização preferem ser chamados de defensores dos direitos dos homens. “Masculinismo infere a ideia de ‘homens primeiro’ ou pautas centradas no homem. Nós nos opomos ao masculinismo, pelos mesmos motivos que nos opomos ao feminismo”, afirma Elam. Porém, especialistas consideram o termo “masculinista” mais adequado justamente por eles se oporem ao feminismo. Segundo Georgia Duerst-Lahti, professora de Ciências Políticas da Beloit College, em Wisconsin, nos Estados Unidos, o movimento começou em 1973 como uma extensão do próprio feminismo. “Surgiu como um reforço feminista. Mas isso mudou quando as mulheres começaram a conquistar direitos e decidiram que não queriam mais a ‘ajuda’ dos homens”, diz.

Com isso, os homens se sentiram ameaçados e grande parte do foco passou a ser os direitos dos pais de ter acesso a seus filhos no divórcio e na suposição de que a mãe sempre é a melhor opção para cuidar da criança. Porém, com o tempo, a preocupação evoluiu. “Como as mulheres têm se tornado mais fortes na sociedade, os homens perderam certos ‘direitos’”, afirma Georgia, referindo-se à mudança da posição do homem como provedor da família, ao perder espaço no mercado de trabalho devido à ascensão profissional da mulher. “Do ponto de vista deles essa mudança é perigosa. Muitos homens continuam certos de que o jeito que as coisas eram antigamente era claramente melhor e, por isso, o feminismo representa um perigo”.

De acordo com Lola Aronovich, professora de sociologia da Universidade Federal do Ceará e autora do blog Escreva, Lola, Escreva, os masculinistas acreditam que o patriarcado é um mito que nunca existiu. “Para eles, as mulheres sempre foram as grandes privilegiadas da história. Esse movimento vem da frustação de homens que não conseguem se adaptar a um mundo menos desigual”. A diminuição da disparidade entre os sexos já conquistada pelas feministas é vista pelos masculinistas como conquista de regalias. “Elas não terão igualdade até que arquem com a responsabilidade que vem com ela, como o alistamento militar. Até então, o que as mulheres têm é um tratamento especial. Isso não tem nada a ver com a igualdade”, afirma Eslam.

As causas defendidas por eles atualmente são muitas. Em geral, as frentes procuram acabar com o que eles acreditam ser estereótipos e preconceito jurídico e cultural quanto aos homens. “A sociedade acredita que os homens são os criadores e supostos beneficiários de tudo de ruim”, afirma Aldir Gracindo, editor do AVfM Brasil e representante do Dia Internacional do Homem no Brasil – e ex-feminista, como ele mesmo colocou. “Pensam em nós como a fonte de toda a violência e guerras, os espancadores, os donos opressores do mundo, os estupradores, os psicopatas, e as mulheres, crianças e mesmo meninos, são nossas vítimas e de um sistema sócio-político-social maligno que teria sido criado por nós, chamado por ideólogos de ‘patriarcado’ ou ‘machismo’”.

Segundo os masculinistas, o maior erro das feministas é fazer com que o homem sempre seja visto como agressor, mesmo antes de serem julgados. “O feminismo se tornou dominado por uma ideologia de ódio”, diz Gracindo. “A Lei Maria da Penha, por exemplo, a Justiça de proteção à mulher e o feminismo militante instalado em todas as Universidades corroem garantias constitucionais dos homens, pais, meninos e estudantes, como a presunção de inocência e a ampla defesa”.

A afirmação do editor da AVFM mostra que os ativistas acreditam que em casos de violência contra mulheres, elas se aproveitam de sua posição de vítima e culpam os homens sem nem lhes dar chance de defesa. Essa noção de que a mulher é sempre entendida como vítima vai contra o senso comum que, na maior parte das vezes, coloca a mulher como culpada pela violência que sofre, sendo condenada por estar supostamente provocando o violentador de alguma forma, seja com suas roupas apertadas e justas, ou por estar andando na rua tarde da noite. O discurso dos masculinistas reforça essa transferência de responsabilidade. No Brasil, onde estima-se que 2 mil mulheres sejam mortas todos os anos por parceiros ou ex-parceiros, defender isso é alarmante.
O número de adeptos de grupos e sites de discussão sobre o masculinismo é expressivo – no Facebook, há pelo menos dez páginas dedicadas ao masculinismo, com cerca de 80 mil participantes. Porém, a liberdade só será conquistada com o respeito entre homens e mulheres. Como diz Georgia: “É claro que a verdadeira libertação vem quando a sociedade é capaz de reconhecer os problemas das construções atuais de masculinidade, bem como feminilidade, e permitir uma maior expressão humana, independentemente de seus genitais”.



Sobre

Jornalista apaixonada por cultura e feminista em constante evolução. Tem um quê de psicóloga de bar e filósofa de padaria, mas sabe que ainda tem muito o que aprender desta vida severina. De vez em quando, se ilude achando que fotografa bem.


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