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Irmandade em aquarela

Negras, brancas, altas, baixas, com olhos claros ou cabelos coloridos: dentro do Selfless Portraits das Minas, um grupo no Facebook voltado para mulheres envolvidas com arte, não existe um padrão de beleza e um ideal artístico específicos. No Selfless vale tudo, menos retratos masculinos.

“A ideia do projeto surgiu quando a minha amiga Sirlanney, da página Magra de Ruim, lançou o projeto do livro dela no Catarse. Para a divulgação, ela chamou a galera da ilustração e pediu que a gente fizesse um flyer. Eu resolvi desenhá-la e ela me desenhou de volta, sem que eu pedisse nem nada. E nossa, isso me fez muito bem, foi uma sensação incrível! Nisso, convoquei as meninas no grupo da Zine XXX e umas trinta toparam fazer essa mesma experiência. Fomos trocando retratos, experiências, dicas, mas sobretudo muito carinho. E isso é o que faz com que hoje o grupo tenha quase quatro mil pessoas”, explica Suzana Maria, idealizadora do projeto.

Na época em que conversei com Suzana, o Selfless contava com cerca de 3.500 membros, todos do sexo feminino. Em poucos dias, esse número pulou para mais de 4 mil. E por que homem não pode brincar também? A moderação é clara: o grupo foi criado para a troca de retratos entre mulheres e para mulheres – isso inclui mulheres transexuais. Por isso, posts com desenhos masculinos ou com representações de homens não são permitidos, também por questões de segurança das próprias participantes. Esse espaço, exclusivamente feminino, acaba tendo um impacto muito positivo no comportamento das meninas que participam das trocas.

“Eu vejo força e mudanças drásticas em muitas mulheres que estão no grupo. Elas têm se sentido mais confiantes desde que passaram a receber o apoio que existe lá dentro. Já recebi vários relatos de meninas que tiveram coragem de enfrentar situações de sexismo, meninas que tiveram coragem de criar páginas próprias no Facebook. Meninas que sentiram que fazem parte do mundo, e que podem gritar agora, porque elas descobriram sua própria voz”, acredita Suzana.

Toda semana, na sexta-feira, 10 duplas de meninas são sorteadas para fazer a troca de retratos, como uma forma de estimular a autoestima e a confiança de cada uma em si. Todas as técnicas são permitidas: aquarela, guache, colagem, nanquin, lápis de cor, programas de edição digital… O que vale é participar da brincadeira, de alguma maneira, mesmo que com produções diferentes, como esculturas e fotografias. Desenhos aleatórios, sem precisar do sorteio de sexta, também são permitidos e incetivados.

A iniciativa acaba sendo uma boa resposta para o machismo que existe dentro do próprio meio artístico. Uma das maneiras de silenciar as mulheres é justamente dizer que não há uma produção feminina de quadrinhos e ilustrações – esse foi um comentário que a própria Suzana precisou ouvir isso, durante um evento de quadrinistas em Brasília.

“O meio artístico é um reflexo da nossa sociedade. E por mais que pareça um espaço que serve de desconstrução das nossas impressões sociais, na prática não é bem assim. Um exemplo disso é se você parar para pensar e tentar lembrar os nomes de dez artistas mulheres importantes do século 20. Acredito que sim, o meio tem mudado muito, mas não significa que ele esteja bem o suficiente para não falarmos mais sobre o machismo”, reforça ela.

As minas estão produzindo, sim, e não é pouco. Quer uma arte mais empoderadora do que essa? Avante, minas!



Sobre

Meio briguenta e meio budista, Giovanna nasceu com a alma fingidora e dolorida dos poetas e com o defeito de fábrica da paixão pelo jornalismo. Encontrou no feminismo e nas Madalenas uma das maiores inspirações para lutar e viver. Nunca acreditou no impossível, e a prova disso é você, que nos lê agora. Chega mais!


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