Arte por Fernanda Lins

Política: por que nós ainda não chegamos lá

*arte: Fernanda Lins

Pela primeira vez na história da política brasileira, três candidatas à presidência da república tiveram a soma das intenções de voto superior à dos candidatos do sexo oposto. Dilma Roussef, do PT, Marina Silva, do PSB, e Luciana Genro, do PSOL, trouxeram luz a um debate que diz respeito a todas as mulheres. A desigualdade política de gênero e a falta de apoio dos partidos às candidaturas femininas ainda são um obstáculo para a democracia.

De acordo com os dados do Sistema de Divulgação de Candidaturas, a participação das brasileiras em algum cargo das Eleições Gerais é 46,5% maior do que no último pleito, em 2010. Dentre 25 mil candidatos, 7.407 são do sexo feminino, representando 29,73% do total de concorrentes em 2014. Em 2010, esse percentual era de 22,43%.

O cenário, porém, só é favorável no que diz respeito à corrida presidencial. No Legislativo e no Executivo estadual, a participação de mulheres ficou aquém do esperado. Em 2010, a Câmara dos Deputados tinha um total de 52 mulheres em exercício do mandato. Nesse ano, 49 mulheres vão assumir na próxima legislatura, um número que contraria as expectativas de grupos feministas e ativistas sociais.

“A representação de interesses e de parcelas da sociedade ainda é baixa. Numa visão ampla de participação política, que inclui mais do que partidos, temos mulheres em todas as áreas. Mas a questão é: nestes lugares, quais são seus papéis? Qual é o seu peso? Conseguem representar as mulheres? Vivemos a lacuna entre participar e de fato representar as próprias mulheres e a interesses da sociedade”, acredita Telia Negrão, mestre em Ciência Política e coordenadora de Articulação do Projeto de Monitoramento da Cedaw – Ação Permanente do Movimento de Mulheres.

Luciana Genro e a cantora Marina Lima, no evento “Entre elas: uma conversa com Luciana Genro”, em outubro

Barreiras
A conquista das cadeiras na Câmara e no Congresso são só o primeiro obstáculo dessa luta. As dificuldades vão além. As candidatas precisam enfrentar, quando se filiam aos partidos, desde situações de machismo até casos mais graves, em que elas se tornam “laranjas” das legendas.
Essa atitude visa driblar as cotas estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O artigo 10 da Lei 9.504/97 assegura a reserva de pelo menos 30% do número de candidaturas para as mulheres. Como muitos partidos não conseguem atingir esse percentual, as candidatas são inscritas como “laranjas” e não recebem nenhum tipo de investimento efetivo em suas campanhas.

“Os próprios partidos operam em uma lógica comercializável e não a partir de um programa político. Isso leva a prática de instrumentalizar a atuação as mulheres para angariar votos, muitas vezes reforçando estereótipos das mulheres que não necessariamente contribuem para a autonomia e libertação das mulheres. Por exemplo, figurões partidários que lançam suas esposas como candidatas”, acredita Mariana Conti, deputada federal pelo PSOL.

Para ela, as políticas de cotas partidárias para as mulheres é um avanço, mas é preciso ir além. Mariana defende a democratização do processo eleitoral e o fim do financiamento privado de campanha, que reforçam a desigualdade e a baixa representação de diversos setores da sociedade.
“Sem a eliminação dessas desigualdades estruturais, muitos partidos acabam apenas cumprindo tabela e lançando candidatas mulheres para cumprir as obrigações da lei. É necessário ir além. É necessário incentivar a participação política das mulheres e construir políticas que expressem combate ao machismo da nossa sociedade”, reforça a deputada.

Em outubro, Luciana Genro participou do evento “Entre elas: uma conversa com Luciana Genro”, no Espaço Revista CULT, para abordar pontos fundamentais de sua campanha. A candidata do PSOL falou sobre machismo, violência doméstica, aborto e se declarou a primeira candidata  à Presidência da República feminista. Confira o vídeo na íntegra!

Posicionamentos
Algumas bandeiras clássicas do movimento feminista, como a legalização do aborto, foram pouco discutidas durante o mandato de Dilma Roussef. Segundo dados do Conselho Federal de Medicina, o aborto clandestino é a quinta causa de mortalidade entre as mulheres. Ainda assim, Dilma é a favor da manutenção da legislação vigente, em que o aborto só é permitido em casos de estupro, risco de vida à mulher e gestação de anencéfalo.

Em contrapartida, a candidata do PT se posicionou com mais firmeza em relação à violência doméstica contra as mulheres e o empreendedorismo feminino, destacando a importância do empoderamento das mulheres. “Acredito num Brasil com mais direitos, com mais reforço da autonomia das mulheres. Um Brasil sem discriminação. Nós estamos na etapa em que é necessário reforçar esse combate à discriminação, seja à mulher, seja ao negro, seja a homofobia, às diferentes orientações sexuais. É caso para o Brasil se mobilizar e lutar contra esses processos bárbaros que atentam contra a civilização”, afirmou, em entrevista à Agência Brasil.

Demandas
Aborto, melhores condições de trabalho, fim da violência doméstica… Essas são apenas algumas das demandas que as candidatas precisam trazer para o debate. Para a especialista Télia Negrão, Dilma Roussef precisa falar sobre “a efetiva inclusão da mulher no mundo, sem restrições, discriminações, cerceamento, violência ou estereótipos.​ ​Por isso, são necessárias políticas públicas para a cidadania das mulheres e o fim de toda a legislação restritiva à autonomia das mulheres”, acredita ela.

Além de uma política pautada voltada a essas questões, a organização e a luta das mulheres no dia a dia são indispensáveis para cobrar nossos governantes. Nesse quebra-cabeça, o feminismo é peça fundamental para que nossas vozes sejam ouvidas. Até quando tolerar o assédio indiscriminado nas ruas, no transporte público e nos ambientes corporativos? Até quando permitir que o aborto seja um dos maiores responsáveis pela morte de mulheres? Até quando assistir em silêncio à desigualdade salarial no mercado de trabalho e à falta de apoio a mulheres com filhos?

Apesar do cenário ainda ser muito conservador, a deputada federal Mariana Conti acredita que mais mudanças virão em 2018 – contanto que exista uma maior mobilização popular em torno das demandas das mulheres. “Fico muito animada com a juventude que tem aparecido na luta política. É uma juventude bem informada, que deseja mudanças e vem reivindicando respeito aos direitos humanos, o fim da opressão de gênero e liberdades de expressão da sua sexualidade”, conclui ela. A luta deve continuar!



Sobre

Meio briguenta e meio budista, Giovanna nasceu com a alma fingidora e dolorida dos poetas e com o defeito de fábrica da paixão pelo jornalismo. Encontrou no feminismo e nas Madalenas uma das maiores inspirações para lutar e viver. Nunca acreditou no impossível, e a prova disso é você, que nos lê agora. Chega mais!


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