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Elas não precisam ser salvas: as mulheres nos quadrinhos

Foi-se o tempo em que a questão de gênero era barreira para que as mulheres pudessem contar e fazer parte das histórias em quadrinhos. O aumento considerável de representatividade da mulher nos mais variáveis assuntos, e também da crescente população feminerd, mudou essa realidade.

Claro que o desequilíbrio entre sexos ainda existe, e é um dos mais impressionantes exemplos do potencial feminino desperdiçado dentro do universo da HQ. A carência de protagonistas mulheres relevantes ainda é notável, bem como a falta de visibilidade para as artistas no ramo.

A principal justificativa encontrada para esse fenômeno é o público escasso com interesse para esse tipo especifico de produção. No português claro: a falta de interesse das “calcinhas” pelos quadrinhos… Pelo menos, é esse o argumento que se perpetua entre os consumidores e parte dos produtores do setor.

Será mesmo que as mulheres, em sua maioria, não se atraem pelo conteúdo das revistinhas? Se não, até que ponto são culpadas por essa renuncia?

“Ligação para o Super-Homem!”

Gavião Negro: “Mulher Maravilha, os membros do Batalhão da Justiça gostariam que, mesmo que agora você seja um membro honorário, que você fosse nossa secretária”; Mulher Maravilha: “Puxa! É uma grande honra!”

A mão de obra feminina foi muito importante durante a II Guerra Mundial pois, com o recrutamento de muitos homens para servirem em combate, as mulheres assumiram o funcionamento da indústria. Isso serviu como espelho para a criação de personagens femininas marcantes nos quadrinhos estadunidense, como a Mulher-Maravilha e Miss Fury.

Na época, muitas mulheres liam quadrinhos e muitos deles eram de aventura, fazendo com que suas personagens  fossem retratadas de maneira muito independente e forte.

Porém, por volta de 1945, incentivar o poder feminino já não era mais interessante, pois juntamente com o término da guerra e retorno dos combatentes americanos à suas casas, vinha a necessidade de reaverem seus empregos. Isso alavancou uma série de campanhas que enfraqueciam não só o papel da mulher na sociedade, mas também seu papel em propagandas e nos quadrinhos.

Indústrias iniciaram ações publicitárias que enfocassem a importância da mulher em casa cuidando da família. Foi então que personagens femininas deixaram de ser heroicas e passaram se importar mais com romances e tarefas domésticas.

Lois Lane, do universo do Super-Homem, não passava de um elemento menor no roteiro. Possuia o simples objetivo de ser salva o tempo todo, e o de tentar descobrir a identidade secreta do super-herói para casar-se com ele.

A Mulher-Maravilha, mesmo com gigantesca força física, resistência a fogo, habilidade de voar e de pilotar um jato invisível, foi posta como secretária da Liga da Justiça, deixada para trás enquanto os homens corriam para salvar o mundo. Consegue imaginar alguém com poderes sobre-humanos se contentando em passar  ligações para o Aquaman e anotar recados para o Flash?

Mais linhas curvilíneas

Juntamente com as tarefas domésticas e comportamentos tradicionalistas da época, foram atribuídas algumas “curvas extras” no traço do corpo das mulheres de papel. No início dos anos 90, a objetificação feminina passou a ser uma estratégia para atrair cada vez mais o consumidor masculino.

Segundo Cristina Peter, colorista da Marvel e DC Comics e primeira brasileira indicado ao prêmio Eisner (o Oscar dos quadrinhos), muitos deles foram e são produzidos por uma maioria de profissionais homens, que acabam representando as mulheres de acordo com seus gostos pessoais. “Como nossa cultura, de maneira geral, dá muita importância a aparência, acabou se perpetuando essa ideia de que mulheres nos quadrinhos devem ser sempre um colírio”, comenta.

A indústria perdeu muitas leitoras com essa estratégia. A cultura de “quadrinhos produzidos por homens para homens” se alastrou, transformando as personagens femininas em acessórios bonitos de ver (e muitas veze sendo resumidas a apenas isso).

Chega de ser salva, que tal bater também?

80cc3834cc64fee236b8e11372d1ced5Na década de 60 o movimento feminista invadiu a Europa e os Estados Unidos, buscando novos horizontes e queimando sutiãs em praças. Essa evolução sócio-política também se manifestou nos quadrinhos heroicos, onde as personagens femininas foram adotando uma nova postura. Nessa época a Mulher Gato, vilã da DC Comics, ganhou força. Mesmo com papel secundário, a inimiga do Batman chamou bastante atenção por ser uma  mulher aventureira,  animada, descumpridora da lei e dos bons costumes.

Ainda nas revistas do homem morcego, outras personagens femininas fortes foram aparecendo, como a Hera Venenosa, Arlequina e Batgirl. Apesar de possuíssem um apelo sexual  muito grande, ganharam o público feminino moderno por não  possuírem aquela aura de “donzela em perigo”.

Já a Marvel começou a atrair as mulheres com as edições dos X-Men, onde as personagens dividiam não só as funções de heroínas com os personagens masculinos, como também são mais importantes – como o caso de Jean Grey, a integrante mais poderosa do mundo mutante.

A concepção de força e autonomia feminina foi, enfim, voltando para as HQs.

Cristina, Peter afirma que o mercado de quadrinhos é como qualquer outro, “não depende de gênero e sim de persistência e talento. Muitas pessoas tendem a acatar frases como ‘quadrinhos não são coisa de menina’, e esse é o pior erro. Existem muitas mulheres fazendo quadrinhos, porém não temos destaque”.

Discussões de representatividade são importantíssimas para que o mercado mude a maneira de representar a mulher – principalmente no meio artístico.

Supermulheres no comando

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Atualmente, as mulheres são tão desejadas como consumidoras pelo mercado quadrinista que a Marvel lançou o rótulo Girl Comics (Quadrinhos para Garotas, em tradução livre), uma revista feita exclusivamente por mulheres, desde a edição até o letramento.

“A indústria de quadrinhos quer desesperadamente atrair mais e mais leitores, e o público feminino tem um grande potencial. Vide o mangá, que tem um público feminino consumidor altíssimo que a editoras norte-americanas estão loucas para conquistar”, confirma Cristina.

Outra mudança que fez barulho no setor foi o fato de a Marvel anunciar, em julho deste ano, que o martelo mágico do personagem Thor passará a ser empunhado por uma mulher em sua nova série de quadrinhos. Na história, Thor, o Deus do Trovão, estragou tudo e não é mais digno de empunhar seu martelo. Uma mulher então é escolhida.

No fim das contas, o universo dos quadrinhos é nada mais que um retrato da realidade atual: a sociedade finalmente percebe que as mulheres podem e devem carregar o martelo, e pode ser que em algumas situações o farão melhor que os homens. “Por Asgard”, diria Thor, e pelo fim do sexismo também.



Sobre

Ranzinza por natureza e procrastinadora por opção, é tão "8 ou 80" quanto seu signo de gêmeos lhe permite ser. A personalidade caótica a torna capaz de conciliar a carreira de assessora de imprensa com a alma de artista. Cheiradora de livros nas horas vagas e daydreamer full time. Ah, e feminista assumida!


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