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Por que precisamos da sororidade?

Você não precisa amar todas as mulheres e ser melhor amiga delas, só precisa não julgá-las apenas porque são mulheres” – Carol Patrocínio

“Mais sororidade, por favor!”. Você provavelmente já deve ter ouvido esse pedido durante alguma discussão no Facebook, entre feministas. Mas afinal de contas, o que significa ter mais sororidade em relação a outras mulheres? É sentir amor, carinho, respeito, união…? Talvez, um pouco de tudo isso ao mesmo tempo.

No nosso dicionário comum, não existe definição para esse termo. Por isso, “sororidade” é explicada como a “irmandade” entre as mulheres, tal como a fraternidade funciona para os homens em geral. No Dicionário de Estudos de Gêneros e Feminismos, da cientista social Susana Beatriz Gamba, sororidade “é uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo. É uma experiência subjetiva entre mulheres na busca por relações positivas e saudáveis, na construção de alianças existencial e política com outras mulheres, para contribuir com a eliminação social de todas as formas de opressão e ao apoio mútuo para alcançar o empoderamento vital de cada mulher”.

Parece complicado, né? Na prática, é mais simples do que isso. Muitas vezes, adotamos uma postura mais defensiva umas com as outras. É aí que a tal “aliança” é enfraquecida, já que algumas mulheres não se sentem parte de um todo, competindo entre si. Sororidade, de certa maneira, é enxergar-se na outra mulher. Reconhecer nela as próprias fraquezas, opressões, julgamentos, dores, virtudes, força. Por meio da compreensão mútua, nos vemos vítimas dos nossos próprios preconceitos. E é aí que a sororidade funciona: para desconstruir a ideia de que mulheres são rivais.

Para entender melhor o que é sororidade, é bom conhecê-la pelos olhos de quem também está na luta feminista. É o caso da jornalista e militante feminista Carol Patrocínio, que topou me explicar como a sororidade funciona em seu dia a dia.

Madalenas – Sua relação com outras mulheres, como amigas e conhecidas, sempre foi tranquila? Você alguma vez sentiu dificuldade para se relacionar com elas?

Carol Patrocínio - Tive as mesmas dificuldades que acredito que existam na vida de toda mulher: fui ensinada que mulheres competiam entre si e, por isso, nunca fui 100% amiga de mulheres. Fui entender melhor essa relação depois dos 20 anos, já adulta. Ali encontrei um grupo de amigas que é muito forte até hoje e descobri que não tinha essa de competir, notei que a gente ficava mais fortes juntas.

M – Quando você entendeu melhor o significado de “sororidade”? O que é sororidade para você?

CP – Pra mim, sororidade é olhar com olhos neutros para outras mulheres. Isso é importante porque somos criadas em um mundo machista e nosso olhar está cheio de preconceito em relação às minorias. Entender que muito do que as mulheres fazem é reprodução do patriarcado ou do que lhes foi ensinado nos dá chance de melhorar muito as relações e entender seus desafios.

Fui entender isso depois de algum tempo de feminismo. Vi que temos que cuidar das nossas irmãs, ajudá-las e nos esforçar para que todas consigamos nos desconstruir (despir-nos de preconceitos). Isso não quer dizer, de forma alguma, passar a mão na cabeça de outras mulheres, mas respeitá-las como seres humanos em luta com tudo aquilo que foi colocado em suas cabeças.

M – Qual é a importância dessa união para a luta feminista?

CP - Se a gente não conseguir olhar para outra mulher sem a lógica patriarcal impregnada em nós, não vamos conseguir transformar a sociedade.

M – Que você acha que precisa mudar e/ou melhorar na relação entre as mulheres?

CP- Acho que temos, cada vez mais, que lutar contra a ideia de que temos que ser melhores que as outras, que as outras estão tentando nos atrapalhar e entender suas motivações. Muitas vezes é apenas questão de limpar a visão de preconceitos compulsórios.

M – É importante que esse relacionamento (e aproximação entre as mulheres) também aconteça no mundo offline, com encontros periódicos e outras iniciativas nesse sentido?

CP - É, sim, mas acho que vai além de encontros com foco nisso. A criação desses laços se dá no dia a dia, com mulheres que fazem parte da sua vida, que cruzam seu caminho e participam direta ou indiretamente da sua rotina. Aprender com a outra, ajudar na desconstrução do machismo e colaborar para que fofocas e o hábito de julgar a outra sejam extintos é um ótimo primeiro passo. Você não precisa amar todas as mulheres e ser melhor amiga delas, só precisa não julgá-las apenas porque são mulheres.

*Carol Patrocinio é jornalista, escreve sobre saúde, sexualidade e feminismo, entre outros temas. O foco do seu trabalho é o enfrentamento à violência contra mulher, igualdade de gênero e políticas equitárias.



Sobre

Meio briguenta e meio budista, Giovanna nasceu com a alma fingidora e dolorida dos poetas e com o defeito de fábrica da paixão pelo jornalismo. Encontrou no feminismo e nas Madalenas uma das maiores inspirações para lutar e viver. Nunca acreditou no impossível, e a prova disso é você, que nos lê agora. Chega mais!


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