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Racismo nosso de cada dia

Já faz 18 anos que a atriz Taís Araújo, aos 17, marcou a história da teledramaturgia no Brasil como a primeira negra a protagonizar uma novela em Xica da Silva, de Walcyr Carrasco.

Até então, mulheres negras já haviam sido representadas nas telas, porém sempre de forma mínima, em número reduzido no elenco – apesar de a população negra ser maioria no país, segundo o IBGE – e em papéis menores como empregadas domésticas ou cozinheiras. Nos últimos anos, a importância das personagens negras nos folhetins aumentou ou diminuiu conforme o interesse dos autores (a própria Taís chegou a protagonizar outros títulos, como Da cor do pecado, em 2004). Mas a série escrita e dirigida por Miguel Falabella, Sexo e as nêgas, que estreou em setembro na TV Globo, já causou muito furor por ser tudo, menos empoderadora.

O seriado é baseado no sitcom americano Sex and the City, narrado pela personagem Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), que acompanha a vida íntima de quatro amigas brancas de classe média alta em Nova York. Elas falam de carreira – entre as protagonistas há uma colunista, uma advogada, uma relações públicas e uma comerciante de arte – e, muitas vezes, questionam o lugar da mulher na sociedade, tratando de causas feministas. Tudo isso, claro, do ponto de vista de mulheres brancas e de padrão socioeconômico mais elevado.

A versão à brasileira mostra o dia a dia de quatro amigas (interpretadas pelas atrizes Corina Sabbas, Karin Hils, Lilian Valeska e Maria Bia) moradoras da Cidade Alta de Cordovil, subúrbio do Rio de Janeiro, a partir da narração de Jesuína (Claudia Jimenez) proprietária do bar que as amigas frequentam e também da rádio local. Para os mais desatentos, a série pode parecer um programa comum e até mesmo interessante por focar em mulheres negras, em uma emissora de sinal aberto. Porém, a começar pelo título, Falabella irritou a opinião pública e foi taxado de racista.

À direita, Fernanda Cacau, gestora. Crédito: Reprodução Facebook

Fernanda Cacau, gestora, postou sua foto de protesto nas redes sociais. Crédito: Reprodução Facebook

Blogs e redes sociais pipocaram com críticas negativas. No Facebook, foi criada uma página que pede o boicote da série e já tem mais de 30 mil curtidas (antes da estreia eram 17 mil). As participantes lançam abaixos assinados, postam matérias relacionadas à causa e também fotos segurando cartazes com a hashtag #nãomerepresenta.

Além disso, o programa também foi denunciado para a Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial (Seppir). A assessoria de comunicação da secretaria divulgou uma nota, no dia 17 de setembro, que havia recebido até então 177 denúncias, sendo 35 após a estreia. Em nota à imprensa, o titular do órgão, Carlos Alberto de Souza e Silva Júnior, afirmou que a Seppir remeteu o caso ao Ministério Público Federal no Rio de Janeiro. “A ouvidoria da igualdade racial vê com estranheza e preocupação qualquer tipo de manifestação que reproduza estereótipos racistas, machistas, que se alicerce na sexualidade das mulheres negras, ou venha a reforçar ideias de inferioridade dessas mulheres”, disse. A procuradora Ana Padilha, do MPF-RJ, está analisando o caso.

Segundo Lucas Martins Néia, roteirista e pesquisador de  história e dramaturgia do teatro pelo Centro de Estudos de Telenovela da ECA – USP, a representação de negras como moradoras de comunidade é algo recorrente na dramaturgia brasileira, contudo, ele não acredita que Sexo e as nêgas reforce esse estereótipo. “No primeiro episódio as quatro mulheres se unem para comprar um carro e são bem sucedidas. Além disso, há a personagem da Adriana Lessa, uma mulher bem sucedida e proprietária de um negócio no setor de eventos”, diz. Néia também acredita que Miguel Falabella foge do comum ao abordar a vida das quatro mulheres na série. “É óbvio que ele não enfrentou os percalços que mulheres negras e com pouca renda dão de cara no dia a dia”. E continua: “Mas ele só consegue desviar dessa abordagem estereotipada por vir da escola da comédia, especialista em subverter conceitos (e preconceitos) pelo riso”.

Com todo o burburinho ao redor da série, o diretor Miguel Falabella decidiu se pronunciar. Em coletiva de imprensa do programa, que aconteceu no dia 8 de setembro, na Central Globo de Produção, ele disse, em tom de ironia: “as pessoas têm que protestar mesmo. Este país precisa de protestos!”. No mesmo dia, em seu perfil do Facebook, escreveu: “O negro mais uma vez volta as costas ao negro. Que espécie de pensamento é esse? Não sei o que é mais assustador. Se o pré-julgamento ou se a falta de humor. (…) Sexo e as nêgas não tem nada de preconceito. Fala da luta de quatro mulheres que sonham, que buscam um amor ideal. Elas podiam ser médicas e morar em Ipanema, mas não é esse meu universo na essência, como autor. Não sou Ipanemense. Sou suburbano, cresci com a malandragem nos ouvidos. Portanto, as minhas personagens são camareiras, cozinheiras, indicadoras de mesas, operárias. E desde quando isso diminui alguém? São negras, são pobres, mas cheias de fantasia e de amor. São lúdicas! E sobrevivem graças ao humor. Seres humanos. Reais. Com direito a uma vida digna e muito… Mas MUITO sexo! Vai dizer agora que eu sou racista? Ah! Nega… Dá um tempo…”.

As declarações de Falabella não foram nem de perto suficientes para que os protestos acalmassem. Na noite de estreia, um grupo liderado pelo Levante Popular da Juventude organizou um protesto contra a exibição do programa. Com o grito de guerra “pro racismo acabar, a Globo ‘vamo’ escrachar. E se as ‘preta’ se unir, ‘Sexo e as nêga’ vai cair”, eles protestaram em frente a fachada da emissora, onde picharam a palavra “racista”. Um vídeo com imagens do protesto foi divulgado no dia seguinte:

Na mesma semana da manifestação, a ONU (Organização das Nações Unidas) divulgou um informe afirmando que o racismo no Brasil é “estrutural e institucionalizado”. Segundo o documento, “o Brasil não pode mais ser chamado de uma democracia racial e alguns órgãos do Estado são caracterizados por um racismo institucional, nos quais as hierarquias raciais são culturalmente aceitas como normais”.

Entendendo a polêmica
Para explicar a polêmica, o site Blogueiras Negras criou uma websérie chamada #AsNegasReal. No primeiro episódio, lançado no dia 6 de setembro, a coordenadora do blog, Charô Nunes, reuniu quatro mulheres negras feministas também colaboradoras do site para discutir o que elas viam de errado na série, antes mesmo da estreia. Entre os pontos destacados estão:

Conceito problemático
Segundo Gabi Portfirio, especialista em língua portuguesa pela Universidade Federal Fluminense e professora de literatura e português, a série reforça três estereótipos: associa o negro à pobreza, associa a mulher negra a empregos mau remunerados e informais e reforça a hipersexualidade delas. “Nenhuma das personagens tem empregos como os da série original”, diz. “Não que rejeito mulheres negras moradoras de comunidade que sejam camareiras ou cozinheiras existam. Porém, além disso, também somos advogadas, arquitetas e colunistas de revista. A realidade da mulher negra vai além do estereótipo que Miguel Falabella vai com certeza reforçar”.

Protagonismo de fachada
Charô explica que a narrativa, feita por meio da atriz Claudia Jimenez, cria uma situação de fetiche, ou simplificando, de zoológico. “Ela vai ficar observando essas mulheres negras e comentando a sexualidade a partir do lugar dela de mulher branca num bar”, diz. “Na verdade, não é a mulher negra que é a protagonista. É como se a Claudia fosse o alterego do Miguel Falabella, mostrando como um homem branco vê o comportamento da mulher negra”.

Interpretação da realidade por terceiro
Segundo Aline Djokic, estudante de literatura, língua portuguesa e espanhola e pedagogia da Universidade de Hamburgo, há muito tempo a televisão mostra a interpretação da realidade por meio dos olhos dos homens brancos. Quando isso muda, fica por conta das mulheres também brancas. “O problema dessas series é que perpetuam a ideia de que a mulher negra não pertence a sociedade”, afirma. “Ela poderia fazer uma crítica mostrando onde a mulher negra está, o que faz e como se vê. Mas não o faz. Como podemos saber disso se ela nem mesmo tem direito a fala?”. De acordo com Aline, a partir do momento em que a mulher negra não é vista como uma pessoa que pode falar por si mesma, nós estamos negando a posição dela como cidadã. “A mulher negra sempre aparece como uma cópia incompleta da mulher branca”, diz.

Violência simbólica
Para a blogueira do Escritório Feminista, da revista Carta Capital, a série reduz a mulher negra a uma única possibilidade. “Mas nós, como seres humanos, somos complexas e temos diversas possibilidade de existência”, afirma. “Esse racismo a brasileira teima em nos reduzir a condição de objeto, hipersexualizada, como se não pudéssemos ser outra coisa além dessas representações”. A visibilidade acontece, porém não da maneira que deveria.

A luta continua
Mesmo com as denúncias e as muitas reclamações, a série foi ao ar. Após a estreia alguns textos na internet sugeriam que o burburinho era desnecessário. A crítica de televisão do jornal O Estado de S. Paulo, Cristina Padiglione, afirmou que o seriado é, na verdade, a antítese do estereótipo. “Não há, em absoluto, qualquer sinal de que as mulheres ali apresentadas, as ‘nêgas’, como Falabella defende pela prosódia, sejam tradução desse estereótipo. Não há, como na imagem da mulata exportação, a subserviência a quem as deseja ou cobiça. Ao contrário. Elas mandam na situação. São donas de suas curvas e de suas vontades. Escolhem com quem, quando e como se deitar – ou não”.

Já a opinião do Blogueiras Negras não mudou. No segundo episódio de #AsNegasReal, a publicitária e blogueira Larissa Santiago afirma que se surpreendeu para pior. “(o lugar de fala da mulher negra) Está muito mais distante do que imaginávamos. Pensávamos que seria apenas uma mulher branca analisando a nossa vida, mas estamos a dois passos de distância: é o Miguel Falabella quem narra e a Claudia que olha nossa vida de fora”.

Esse repúdio e a duplicação de membros na página que pede o boicote do seriado, além dos múltiplos textos de crítica que continuam surgindo em fóruns de discussão e portais voltados para as causas negras e feministas, mostram que ainda há muito o que se discutir com relação à representatividade das mulheres negras na televisão. Porém, ao que tudo indica, essa discussão continuará reduzida à internet



Sobre

Jornalista apaixonada por cultura e feminista em constante evolução. Tem um quê de psicóloga de bar e filósofa de padaria, mas sabe que ainda tem muito o que aprender desta vida severina. De vez em quando, se ilude achando que fotografa bem.


'Racismo nosso de cada dia' tem 1 comentário

  1. 03/12/2014 @ 13:22 Adélia Sant Anna

    Sou mulher, sou negra e com certeza essa série não me representa, como também não me vejo na mulata”gostosa” da escola de samba. Sou mais que isso: sou a pessoa que trabalha, que estuda, que batalha, que ri, que chora… como qualquer pessoa de qualquer cor, e que respeita os outros como, aliás, TODAS as pessoas deveriam fazer. Esteriótipos não servem para nada, a não se aumentar o preconceito.

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