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Ajuda: sou machista?

Dúvida do leitor Eric Porto, respondida pela estudante de jornalismo e feminista  Stefanie Cirne:

“Olá, equipe Madalenas, tudo bem?

Meu nome é Eric Luiz Porto, sou repórter e me considero um homem feminista. Esse tipo de declaração pode parecer clichê ou apenas uma afirmação para pertencimento de uma classe, mas eu realmente me sinto engajado em minhas conversas com colegas de trabalho, amigos e familiares.
Minha grande dúvida é quando falo com estranhos e não tenho total liberdade para confrontar uma atitude e/ou comentário machista. Isso aconteceu recentemente comigo e não soube como agir.
Fui ao banco para solicitar meu cartão de crédito e o atendente fez um comentário sobre o bairro onde moro. Ele disse: “Ah, tem muitas mulheres bonitas por lá?” e minha resposta automática foi “Sempre tem”. 
Eu fui machista? Como devo agir nesses casos? Um abraço”

Stefanie: Acho que a gente precisaria de mais alguns detalhes para poder responder ao moço o que ele tá querendo saber. O contexto que ele descreveu no e-mail fez com que eu não entendesse direito nem de onde veio a inquietação dele; consigo ver o que poderia ter a ver, mas não tenho certeza qual o sentido do machismo que ele enxergou na situação. Enfim, acho que se rolou mal estar, já pode ser um sinal amarelo de que essa postura pode ser repensada.

Eu, no lugar dele, teria dado um sorriso amarelo e não respondido nada. Na dúvida sobre como o que a gente vai falar pode soar, é melhor ficar quieto, considerando-se que não era uma barbaridade frente à qual ele não podia deixar de se manifestar. Por outro lado, eu duvido muito que o atendente teria se sentido à vontade (ou na necessidade) de fazer esse comentário a mim, e a partir disso já dá pra pensar algumas coisas.

Primeiro: o cara partia do pressuposto que existe uma parceria tácita entre eles, a parceria da heteronormatividade. Quer dizer, quem poderia garantir que o moço em questão não era gay? Ou assexual? Pelo que ele relata, ele não tinha dado nenhum sinal explícito de que se interessava por mulheres. Daí também dá pra deduzir que ele vê a contemplação das mulheres como um hobby masculino, e acha improvável que um cara não prestasse atenção nelas por uma ótica sexual. Segundo: ele não faria esse comentário pra mim não só porque ele partiria do princípio de que eu não gosto de mulheres, como porque existiria a chance de eu estar sendo contemplada por ele também. Ou seja, já é um privilégio do moço poder solicitar um cartão de crédito e ser considerado um igual pelo atendente, ao invés de ser visto como um corpo que desfila pedindo um cartão.Sobre o “sempre tem”: pessoalmente, eu não achei um lixo de comentário, mas foi a confirmação ao atendente de que a mensagem foi processada: existe mesmo uma parceria entre eles. Essas são algumas sutilezas pelas quais se constrói o sentimento de classe masculina em uma sociedade patriarcal, a ideia de que existem nós, os homens, e elas (as mulheres), que são nossas. Nada disso que eu falei acima deixa de considerar que a resposta foi automática, assim como a pergunta também deve ter sido, é só mesmo uma reflexão sobre o que está por trás delas.
Então, quanto à pergunta: foi machista porque todos (e os homens em especial) somos, em um sentido ou outro ou em maior ou menor grau. Ser machista é o funcionamento padrão dos sujeitos porque é a isso que eles são ensinados pela cultura, e desaprender isso exige um esforço constante de autocrítica, que ele já tá fazendo. 


Sobre

Meio briguenta e meio budista, Giovanna nasceu com a alma fingidora e dolorida dos poetas e com o defeito de fábrica da paixão pelo jornalismo. Encontrou no feminismo e nas Madalenas uma das maiores inspirações para lutar e viver. Nunca acreditou no impossível, e a prova disso é você, que nos lê agora. Chega mais!


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