Crédito: Amanda Garcia

Transpondo fronteiras: a vida de mulheres imigrantes

imigrantes no brasilO número de imigrantes que chega ao Brasil e solicita o visto de permanência dobrou em quatro anos. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Justiça, em 2010, eram aproximadamente 15 mil pedidos. Em 2014, as solicitações já chegam a 30 mil. Mas a grande procura dos imigrantes pelo Brasil tem preocupado entidades e órgãos públicos que dão assistência aos estrangeiros. Eles temem a falta de estrutura e condições para manter tantas pessoas no país.

Uma pesquisa mais recente mostra ainda que, neste ano, até o mês de outubro, as solicitações já ultrapassaram a quantidade de imigrantes que estão no Brasil. Foram 6.886 pedidos contra os 6.721 imigrantes que vivem em território nacional.

O Padre Paolo Parise da Missão Paz de São Paulo, uma das principais entidades religiosas que ajudam os imigrantes e refugiados na capital, diz que há um despreparo na forma como o Estado trata a questão. “Não existem preocupações com o atendimento, a saúde, moradia e emprego para essas pessoas”, afirma. A entidade funciona como uma extensão da Igreja Nossa Senhora da Paz e trabalha em parceria com a Casa do Migrante, onde se concentram muitos dos estrangeiros que chegam a São Paulo.

Mas, mesmo na Casa do Migrante, não são muitos os espaços para acolher tantas pessoas. A estrutura, localizada no Glicério, centro de São Paulo, possui um número limitado de quartos e, mesmo otimizando projetos de ampliação, não dá conta dos pedidos. Segundo o Padre, só neste ano, a entidade já abrigou cerca 5 mil pessoas. Lá é possível encontrar imigrantes de diversas nacionalidades, a maioria de países africanos, como Congo, Somália, Costa do Marfim, Gana e Mali.

Histórias de mulheres

Em setembro, a União Malinesa em São Paulo organizou mais um evento para celebrar, desta vez, o 54º ano de independência do país, que foi colônia da França. A celebração aconteceu no auditório da Missão Paz e promoveu um dia de apresentações culturais com música, dança, artesanato, homenagens e um almoço feito da culinária malinesa – composta de pratos com arroz, carne de peixe de rios doces e de cordeiro e mingau de milho.

Ao entrar na rua já eram visíveis as diferentes etnias que circulavam pelas calçadas e cobriam toda a extensão das grades na fachada da Missão Paz, em São Paulo. A mistura de línguas e dialetos também confirmava a variedade de nações que estavam ali. E, apesar da multidão, havia homens, algumas crianças, mas poucas mulheres. No entanto, naquele dia, elas seriam o foco.

Festa Mali realizada pela Missão Paz que celebrou os 54 anos de independência do Mali. Crédito: Amanda Garcia

Festa Mali realizada pela Missão Paz que celebrou os 54 anos de independência do Mali. Crédito: Amanda Garcia

Não foi preciso perambular muito pelo auditório até encontrar alguém para contar a sua história. A primeira foi Taya, uma malinesa. Fui surpreendida quando ela revelou seus 15 anos, porque a garota era alta e com o corpo bem desenvolvido para a idade. No Mali, a língua falada é o francês, mas ela já falava bem o português. “Eu aprendi sozinha. Meu pai me deu um livro em francês-português no fim do ano passado e eu estudei sozinha.”

Taya chegou ao Brasil no começo do segundo semestre e veio para ficar com o pai, que já vive aqui há 20 anos. Ele é professor de matemática na PUC (Pontifícia Universidade Católica) e a trouxe para estudar o ensino médio. Quando eu perguntei se ela estava gostando da experiência, ela confirmou, porém, disse que sentia falta do Mali e que fica dividida entre seu país e o Brasil. “Tenho saudade da minha família”.

Todo fim de ano seu pai volta ao Mali para ficar com a família. Apenas ele vive no Brasil e, segundo ela, seus parentes não têm interesse em vir para cá. “Meu irmão vem me ver, às vezes, mas depois ele volta pra lá [Mali]”. Taya quer terminar os estudos no Brasil e, no futuro, também trabalhar. Mas um dia pretende voltar ao seu país de origem.

Quando terminamos de conversar, pedi a ela que me levasse até outras mulheres. Fui apresentada a Gloria, uma senhora sul africana que parecia muito contente com a festa. Enquanto saíamos do salão ela sorria e acenava para conhecidos. Começamos a conversar e ela explicou como veio para o Brasil. “Eu fazia parte de um grupo de missionários da África do Sul. Viajava pelo continente africano e foi assim que conheci meu marido. Nós nos casamos lá [África do Sul] e viemos morar no Brasil”.

O marido de Gloria é brasileiro, mas ela mencionou diversas vezes sobre situações em que foi chamada de refugiada. “Já dei muitas entrevistas, mas depois as pessoas distorciam a minha história me chamando de refugiada, imigrante. Imagina se daqui a alguns anos alguém encontra isso [registros falsos] sobre mim? Porque é o que fica depois que a gente morre”.

Depois conheci Olga, 43, que vinha da Costa do Marfim. Ela tinha acabado de chegar ao Brasil. Seu tio, que já vive aqui há 27 anos e é casado com uma brasileira, ofereceu sua casa para que ela viesse estudar em São Paulo. Olga falava francês, mas já articulava um pouco do português. Sentamos nos degraus em frente à Igreja, dentro do complexo da Missão Paz, e perguntei se poderia filmar a entrevista. Ela preferiu que eu não filmasse, mas me deixou gravar em áudio.

Crédito: Amanda Garcia

Crédito: Amanda Garcia

Olga é formada em letras e era professora na Costa do Marfim, mas está no Brasil disposta a estudar enfermagem. Disse que em seu país o número de pessoas que tinham AVC (Acidente Vascular Cerebral) estava aumentando muito e, inclusive, sua mãe tinha sido vítima. “Minha mãe, morava comigo. Depois do AVC ela ficou com um lado do corpo paralisado”. Ela disse que estudar em universidades particulares em seu país era muito caro e ela não teria como bancar. Aqui, no Brasil, Olga viu que os custos seriam menores e por isso aceitou a proposta de seu tio. “Quando eu terminar [a formação] quero voltar para a Costa do Marfim para ajudar a minha mãe e as outras pessoas que precisam de assistência”.

Apesar de recém-chegada, quando perguntei o que ela mais estava gostando no Brasil ela respondeu: “As pessoas. Elas são muito simpáticas. Quando, por exemplo, eu saio de casa e não sei muito bem por onde ir, elas me indicam, me ajudam”.
Ao andar pela Casa do Migrante, que faz parte do complexo da Missão Paz, entrei em uma sala onde estavam duas mulheres do Congo: uma delas sentada em uma cadeira trançando o cabelo da outra, que estava no chão e dividia sua atenção entre a televisão e o filho que engatinhava pela sala.

Em uma das poucas respostas que consegui ela me disse que a criança tinha nove meses. Preferiu não se identificar ou falar sobre a sua história, mas, quando perguntei mais sobre a criança, ela disse em um fraco português: “estou esperando por uma vaga em uma creche há meses, mas a fila é muito grande.” Seu marido estava sentado em uma cadeira de plástico afastado e escutava música no celular. Ninguém ali estava trabalhando. Pelo contrário, passavam o dia assim, esperando alguma mudança positiva depois de terem deixado o seu país.

Um garoto entrou na sala e pedi que ele me levasse até outras mulheres. Fui seguindo-o pelos corredores da ala feminina e entrei em um dos quartos. Lá estavam outras duas mulheres, Nancy, de Camarões, e uma somali, que pediu para não ser identificada. Nancy falava apenas francês e aparentava ser mais velha. Ela contou que já estava no Brasil há um bom tempo e que estava trabalhando em uma lavanderia. Disse que não é mais casada, mas que seus filhos já são adultos e vivem no Camarões.

Depois de ouvir Nancy, perguntei a somali por que veio ao Brasil. Ela contou que na Somália a situação é de muita instabilidade e terror, desde quando a guerra comandada pelo grupo islâmico Al Shabaab se instalou no país. Desde então, a Somália repercute no noticiário internacional o cenário de sequestros e violência, principalmente, com as mulheres. Antes de dar à luz aos meninos, a mulher teve uma filha. Em 2013, a garota foi sequestrada e, depois de algum tempo, a mãe foi informada de que a menina tinha sido morta por grupos de rebeldes. Desde então, a mulher e o marido decidiram sair do país e recomeçar a vida em outro lugar. Ela disse que o marido e o filho mais velho foram os primeiros a deixar a Somália, foram para a Argentina. Depois, ela e o menino mais novo vieram para o Brasil, e os quatro se encontraram aqui. Com poucas informações, eles encontraram ajuda na Missão Paz, onde vivem hoje.

Perguntei se ela estava gostando do Brasil e ela disse que sim. “Está vendo essa calça?”, perguntou olhando para a vestimenta. “Eu não poderia usá-la na Somália. Estou com quase tudo certo para começar a trabalhar na semana que vem. Vou para outra cidade.”
Enquanto conversávamos, o menino mais velho tentava chamar atenção da mãe. Corria, gritava, empurrava o irmão. E quando ela finalmente lhe deu atenção, o garoto colocou a mão no pescoço e a moveu de um lado para o outro, simulando uma decapitação. A mãe murmurou um “ohhh”, indicando que aquele gesto era errado e nada fez além disso.

*Foto: Amanda Garcia



Sobre

A simplicidade e complexidade andam de mãos dadas. Tem vezes que mete os pés pela cabeça, mas quase sempre é dominada pelo silêncio dos olhos. Jornalista com dom para os perrengues e, em seu mundo, um dia tem 48 horas. Ou, pelo menos, deveria ter.


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